R$70 ou R$2.000
Uma cesta básica valia cerca de R$70 por funcionário. Um cartão de benefícios podia valer mais de R$2.000.
Essa era a oportunidade na frente da Foodpass. Já tínhamos os clientes, a marca e um app. O que não tínhamos era tempo: os primeiros clientes estavam procurando um cartão naquele momento, e tínhamos cerca de dois meses para entregar um.
E quem ia usar? Trabalhadores de chão de fábrica que não tinham nenhuma familiaridade com tecnologia. O celular era para ligar e mandar mensagem, e só.
Uma cesta básica nada básica
A Foodpass nasceu de um pivô da Superopa, um e-commerce que vendia produtos perto da validade bem abaixo do preço de mercado. Ela precisava de logística própria e de um armazém cheio de produtos que não sabíamos se íamos vender, então perdíamos muito estoque.
A Foodpass trouxe previsibilidade. Vendíamos a cesta básica, que muitas empresas brasileiras dão aos funcionários, para empresas em vez de consumidores. Sabendo o que ia em cada cesta e quando ela seria enviada, precisávamos de menos capital de giro e planejávamos a logística em datas exatas.
E a nossa cesta não era tão básica: os funcionários podiam trocar os itens que não queriam por outros de valor parecido, ou guardar o valor para o mês seguinte.
Os benefícios de alimentação no Brasil em 30 segundos
Empresas brasileiras costumam dar aos funcionários vale-refeição, vale-alimentação, auxílio-mobilidade e flex além do salário. Empresas como a Flash e a Caju juntam tudo em um cartão multibenefícios, gerenciado em um app.
Uma porta que já estava aberta
Nossos clientes eram, na maioria, empresas tradicionais, com grandes chãos de fábrica e pouco contato com inovação. Ao escolher uma cesta personalizável, elas tinham acabado de abrir a porta para algo novo, e muitas também estavam procurando um cartão de benefícios.
Então por que não oferecer também? Era um upsell para os clientes da cesta e uma segunda opção para os mesmos leads. E, como você viu lá em cima, mudava o tamanho de cada negócio: uma cesta valia cerca de R$70 a R$220 por funcionário, enquanto um cartão costumava ficar entre R$600 e R$900, às vezes mais de R$2.000. Ganhávamos uma pequena porcentagem nos dois.
Para um time pequeno e com pouco investimento, esse segundo produto era o que precisávamos para seguir em frente. E tínhamos que lançá-lo enquanto esses clientes ainda estavam interessados.
O desafio
Como poderíamos encaixar um novo negócio de fintech em um app feito para cestas básicas, em cerca de dois meses, para pessoas que quase não usam tecnologia?
A infraestrutura do cartão vinha do Stark Bank, um banco brasileiro que oferece serviços bancários para empresas por meio de APIs. Ele emitia os cartões e cuidava do dinheiro que as empresas depositavam. Tudo o que desenhávamos tinha que caber no que o Stark Bank suportava.
Em paralelo, desenhamos do zero um backoffice em que o pessoal de RH podia gerenciar as cestas e os cartões dos funcionários.
Cinco trabalhadores, três pessoas de RH
Não tínhamos muito tempo, então fizemos entrevistas semiestruturadas curtas com cerca de 5 trabalhadores e 2 ou 3 pessoas de RH. Não era muito, mas foi o suficiente para mudar o produto:
- Celular é para ligar e mandar mensagem. A maioria dos trabalhadores não tinha nenhuma familiaridade com tecnologia. Muitos não tinham e-mail, ou tinham um que nunca abriam, e senhas não ficavam na cabeça. Cada passo tinha que ser curto, familiar e fácil de desfazer.
- O WhatsApp era a única coisa que todo mundo conhecia. Era o canal mais claro para códigos e instruções.
- A segurança não pode depender de o usuário acertar. Ninguém deveria conseguir ativar o cartão de outra pessoa, confundir códigos ou ter um código exposto.
- O RH é uma pessoa fazendo tudo. No fim do mês, a mesma pessoa cuida dos pagamentos e de todo o resto sobre os funcionários. Era fácil esquecer de incluir ou tirar alguém, e isso fazia o crédito ir para as pessoas erradas.
O que ficou, e o que cortamos
Para cada funcionalidade, fazíamos a mesma pergunta: qual é o essencial para lançar no menor tempo possível e validar esse modelo de negócio?
O que ficou:
- CPF como login. Em vez de e-mail, os funcionários entram com o CPF (que todo mundo sabe de cor) e um código enviado por SMS.
- Um tutorial guiado mostrando onde ver cada benefício e como criar um cartão virtual e adicioná-lo a uma carteira digital.
- Um PIN de 4 dígitos para pagar e abrir a área do cartão. Esqueceu? O RH da empresa ou o nosso suporte no WhatsApp ajudam.
- Uma home para dois negócios. O saldo do cartão e o saldo da cesta ficam lado a lado, então uma olhada mostra tudo.


O que cortamos, de propósito:
- Cartões físicos. O MVP foi lançado só com cartões virtuais, usados pelo Google Wallet e pelo Apple Wallet. Sabíamos que um cartão físico seria mais fácil para os nossos usuários. Mas ele trazia custo, logística e uma experiência mais complexa no app.
- WhatsApp. Queríamos desde as primeiras entrevistas, mas custava mais esforço e dinheiro do que o SMS. Veio depois.
- Ferramentas de backoffice para a correria de fim de mês do RH. Desenhamos, mas deixamos fora da primeira versão.

Tudo foi construído sobre o design system que já tínhamos, para que os desenvolvedores andassem rápido com componentes que já conheciam. O produto inteiro, backend incluído, foi construído em cerca de dois meses, numa época em que a IA ainda não escrevia a maior parte do código para nós.
Mais do que Figma
Meu trabalho não parou nas telas. Participei de todas as discussões sobre cada funcionalidade e como ela seria construída, incluindo a tecnologia por trás. Foi assim que decidimos o que entrava no MVP, e como preparamos o design e o código para as versões que já tínhamos planejado. Alguns atalhos são baratos hoje e caros demais para mudar depois!
Quando o app ficou pronto, revisei cada tela comparando com o design, testando cada fluxo e caçando cada pixel que não batia. Documentei cada diferença no Figma e corrigi com os desenvolvedores em calls.
Fazendo uma designer crescer
Liderei o design com a Paula Fernandes, uma designer júnior do meu time. Ela vinha do Design Gráfico e era nova em UX/UI, então moldei o nosso processo em torno do crescimento dela:
- Wireframes juntos, para definir todo o conteúdo antes de qualquer visual.
- Sessões de crítica dos protótipos e ilustrações dela, seguidas de novas iterações.
- Uma revisão de todo o trabalho dela, com feedback a cada etapa.
Em cada etapa, dei a ela autonomia de verdade, para que ela se tornasse uma designer ainda melhor do que já era.
Um feijão de terno de segurança
Foi aqui que a Paula me ensinou. Ela tinha uma bagagem forte em ilustração, e aprendi muito com ela. Viramos grandes amigos, e recomendo ela para qualquer time em que ela entrar 💜
O logo da Foodpass é um feijão, a base do prato brasileiro e de toda cesta básica. Transformamos ele em mascote, com um tomate, uma batata e o resto da cesta como amigos. Para pessoas com pouca experiência digital, ilustrações explicam o que as palavras não conseguem.
Na tela do PIN, o feijão usa terno preto e óculos escuros e guarda uma porta VIP. Sem PIN, sem entrada. Sem uma linha de texto, ele diz que este lugar é seguro, e o PIN é o que protege ele.

O problema que achamos que podia esperar
O beta provou que a nossa pesquisa estava certa antes do que esperávamos. O RH esquecia de incluir ou tirar funcionários, e o crédito ia para as pessoas erradas.
Os lembretes já existiam, e nunca iam ser suficientes: não tínhamos controle sobre quanta coisa cada pessoa de RH tinha nas mãos. Então a solução tinha que tornar os erros fáceis de desfazer. O RH podia estornar um crédito recente e adicionar crédito a funcionários específicos. Como isso já estava desenhado, conseguimos lançar rápido.
Um código que só o dono vê
Alguns meses depois, a Foodpass lançou os cartões físicos, e as regras de segurança do Stark Bank exigiam que cada cartão fosse ativado com um código que só o dono recebe.
Em 2025, a Foodpass me chamou de volta como freelancer, junto com a Paula, para desenhar essa experiência online e offline. A Paula desenhou o cartão em si, com as minhas revisões e feedbacks. O código de ativação vai na carta-berço, o papel que segura o cartão dentro do envelope. A carta responde cada pergunta na ordem: “Que cartão é esse? Qual app? Como eu entro?” Ela usa linguagem simples, passos visuais e um QR code que leva direto para o app.
Resultados
- Lançamos rápido o bastante para pegar os primeiros clientes enquanto eles ainda procuravam um cartão. Conseguimos!
- O cartão chegou a funcionários de várias empresas, como o segundo produto da Foodpass ao lado das cestas.
- Abriu as vendas para empresas com mais de 500 funcionários.
Próximos passos
Para validar o cartão como segundo negócio, eu mediria:
- O mix de clientes: a parcela de clientes que usa só cestas, só cartões ou os dois, e a receita que cada grupo traz.
- O abandono durante o onboarding, do CPF ao código.
- Os pedidos de suporte sobre os cartões.
Mas só números não bastariam. Pesquisas de intercepção, formulários e tickets de suporte não chegam de verdade a pessoas que não têm familiaridade com tecnologia. Então eu conversaria direto com os funcionários, para ter um retorno real, ao vivo.
E eu perguntaria ao RH. Quando os funcionários têm um problema, o RH é a primeira pessoa que eles procuram. Uma pesquisa com o pessoal de RH, ou uma pesquisa de intercepção no portal do RH, mostraria que reclamações eles recebem.
Agradecimentos
À Paula, e ao Eperson, ao Rafael e ao Henrique, do time de desenvolvimento, que construíram um novo negócio com a gente em dois meses ;)

