Case 03 · Foodpass

De cestas básicas a fintech em dois meses

Lançando o segundo negócio da Foodpass dentro do app que ela já tinha

Empresa
Foodpass
Ano
2024–2025
Meu papel
UX/UI Designer Sênior e líder de design (2024) · Product Designer freelancer (2025)
Time
Eu e Paula Fernandes
O problema

Transformar um app feito para cestas básicas em um produto de fintech, rápido o bastante para pegar os clientes interessados, para pessoas que quase não usam tecnologia.

O resultado

Um MVP lançado para os primeiros clientes enquanto eles ainda estavam interessados, depois levado a funcionários de várias empresas. Abriu as vendas para empresas com 500+ funcionários e deu a um time pequeno uma segunda fonte de receita.

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R$70 ou R$2.000

Uma cesta básica valia cerca de R$70 por funcionário. Um cartão de benefícios podia valer mais de R$2.000.

Essa era a oportunidade na frente da Foodpass. Já tínhamos os clientes, a marca e um app. O que não tínhamos era tempo: os primeiros clientes estavam procurando um cartão naquele momento, e tínhamos cerca de dois meses para entregar um.

E quem ia usar? Trabalhadores de chão de fábrica que não tinham nenhuma familiaridade com tecnologia. O celular era para ligar e mandar mensagem, e só.

Uma cesta básica nada básica

A Foodpass nasceu de um pivô da Superopa, um e-commerce que vendia produtos perto da validade bem abaixo do preço de mercado. Ela precisava de logística própria e de um armazém cheio de produtos que não sabíamos se íamos vender, então perdíamos muito estoque.

A Foodpass trouxe previsibilidade. Vendíamos a cesta básica, que muitas empresas brasileiras dão aos funcionários, para empresas em vez de consumidores. Sabendo o que ia em cada cesta e quando ela seria enviada, precisávamos de menos capital de giro e planejávamos a logística em datas exatas.

E a nossa cesta não era tão básica: os funcionários podiam trocar os itens que não queriam por outros de valor parecido, ou guardar o valor para o mês seguinte.

Os benefícios de alimentação no Brasil em 30 segundos

Empresas brasileiras costumam dar aos funcionários vale-refeição, vale-alimentação, auxílio-mobilidade e flex além do salário. Empresas como a Flash e a Caju juntam tudo em um cartão multibenefícios, gerenciado em um app.

Uma porta que já estava aberta

Nossos clientes eram, na maioria, empresas tradicionais, com grandes chãos de fábrica e pouco contato com inovação. Ao escolher uma cesta personalizável, elas tinham acabado de abrir a porta para algo novo, e muitas também estavam procurando um cartão de benefícios.

Então por que não oferecer também? Era um upsell para os clientes da cesta e uma segunda opção para os mesmos leads. E, como você viu lá em cima, mudava o tamanho de cada negócio: uma cesta valia cerca de R$70 a R$220 por funcionário, enquanto um cartão costumava ficar entre R$600 e R$900, às vezes mais de R$2.000. Ganhávamos uma pequena porcentagem nos dois.

Para um time pequeno e com pouco investimento, esse segundo produto era o que precisávamos para seguir em frente. E tínhamos que lançá-lo enquanto esses clientes ainda estavam interessados.

O desafio

Como poderíamos encaixar um novo negócio de fintech em um app feito para cestas básicas, em cerca de dois meses, para pessoas que quase não usam tecnologia?

A infraestrutura do cartão vinha do Stark Bank, um banco brasileiro que oferece serviços bancários para empresas por meio de APIs. Ele emitia os cartões e cuidava do dinheiro que as empresas depositavam. Tudo o que desenhávamos tinha que caber no que o Stark Bank suportava.

Em paralelo, desenhamos do zero um backoffice em que o pessoal de RH podia gerenciar as cestas e os cartões dos funcionários.

Cinco trabalhadores, três pessoas de RH

Não tínhamos muito tempo, então fizemos entrevistas semiestruturadas curtas com cerca de 5 trabalhadores e 2 ou 3 pessoas de RH. Não era muito, mas foi o suficiente para mudar o produto:

  1. Celular é para ligar e mandar mensagem. A maioria dos trabalhadores não tinha nenhuma familiaridade com tecnologia. Muitos não tinham e-mail, ou tinham um que nunca abriam, e senhas não ficavam na cabeça. Cada passo tinha que ser curto, familiar e fácil de desfazer.
  2. O WhatsApp era a única coisa que todo mundo conhecia. Era o canal mais claro para códigos e instruções.
  3. A segurança não pode depender de o usuário acertar. Ninguém deveria conseguir ativar o cartão de outra pessoa, confundir códigos ou ter um código exposto.
  4. O RH é uma pessoa fazendo tudo. No fim do mês, a mesma pessoa cuida dos pagamentos e de todo o resto sobre os funcionários. Era fácil esquecer de incluir ou tirar alguém, e isso fazia o crédito ir para as pessoas erradas.

O que ficou, e o que cortamos

Para cada funcionalidade, fazíamos a mesma pergunta: qual é o essencial para lançar no menor tempo possível e validar esse modelo de negócio?

O que ficou:

  • CPF como login. Em vez de e-mail, os funcionários entram com o CPF (que todo mundo sabe de cor) e um código enviado por SMS.
  • Um tutorial guiado mostrando onde ver cada benefício e como criar um cartão virtual e adicioná-lo a uma carteira digital.
  • Um PIN de 4 dígitos para pagar e abrir a área do cartão. Esqueceu? O RH da empresa ou o nosso suporte no WhatsApp ajudam.
  • Uma home para dois negócios. O saldo do cartão e o saldo da cesta ficam lado a lado, então uma olhada mostra tudo.
A home do app da Foodpass com o saldo do cartão e o saldo da cesta lado a lado, ao lado da área do cartão, onde o saldo aparece dividido em refeição, alimentação, flex e mobilidade
A home junta os dois produtos. A área do cartão divide o saldo por benefício.
Primeiro acesso: o mascote feijão dá as boas-vindas ao funcionário, a tela de criação do PIN de 4 dígitos e os dados do cartão, com opções para bloquear, excluir ou adicionar o cartão ao Google Wallet
Primeiro acesso: boas-vindas calorosas, criação do PIN e os dados do cartão

O que cortamos, de propósito:

  • Cartões físicos. O MVP foi lançado só com cartões virtuais, usados pelo Google Wallet e pelo Apple Wallet. Sabíamos que um cartão físico seria mais fácil para os nossos usuários. Mas ele trazia custo, logística e uma experiência mais complexa no app.
  • WhatsApp. Queríamos desde as primeiras entrevistas, mas custava mais esforço e dinheiro do que o SMS. Veio depois.
  • Ferramentas de backoffice para a correria de fim de mês do RH. Desenhamos, mas deixamos fora da primeira versão.
Criação de um cartão virtual em quatro telas: uma introdução com o mascote tomate, o nome do cartão, uma tela curta de carregamento e o cartão criado
Cartões virtuais: dê um nome, espere alguns segundos, pronto.

Tudo foi construído sobre o design system que já tínhamos, para que os desenvolvedores andassem rápido com componentes que já conheciam. O produto inteiro, backend incluído, foi construído em cerca de dois meses, numa época em que a IA ainda não escrevia a maior parte do código para nós.

Mais do que Figma

Meu trabalho não parou nas telas. Participei de todas as discussões sobre cada funcionalidade e como ela seria construída, incluindo a tecnologia por trás. Foi assim que decidimos o que entrava no MVP, e como preparamos o design e o código para as versões que já tínhamos planejado. Alguns atalhos são baratos hoje e caros demais para mudar depois!

Quando o app ficou pronto, revisei cada tela comparando com o design, testando cada fluxo e caçando cada pixel que não batia. Documentei cada diferença no Figma e corrigi com os desenvolvedores em calls.

Fazendo uma designer crescer

Liderei o design com a Paula Fernandes, uma designer júnior do meu time. Ela vinha do Design Gráfico e era nova em UX/UI, então moldei o nosso processo em torno do crescimento dela:

  1. Wireframes juntos, para definir todo o conteúdo antes de qualquer visual.
  2. Sessões de crítica dos protótipos e ilustrações dela, seguidas de novas iterações.
  3. Uma revisão de todo o trabalho dela, com feedback a cada etapa.

Em cada etapa, dei a ela autonomia de verdade, para que ela se tornasse uma designer ainda melhor do que já era.

Um feijão de terno de segurança

Foi aqui que a Paula me ensinou. Ela tinha uma bagagem forte em ilustração, e aprendi muito com ela. Viramos grandes amigos, e recomendo ela para qualquer time em que ela entrar 💜

O logo da Foodpass é um feijão, a base do prato brasileiro e de toda cesta básica. Transformamos ele em mascote, com um tomate, uma batata e o resto da cesta como amigos. Para pessoas com pouca experiência digital, ilustrações explicam o que as palavras não conseguem.

Na tela do PIN, o feijão usa terno preto e óculos escuros e guarda uma porta VIP. Sem PIN, sem entrada. Sem uma linha de texto, ele diz que este lugar é seguro, e o PIN é o que protege ele.

O mascote feijão nas telas de PIN: pescando um cadeado perdido na recuperação do PIN, de terno preto e óculos escuros guardando uma porta VIP na digitação do PIN, e segurando um cadeado na alteração do PIN
O feijão de plantão: recuperação, digitação e alteração do PIN

O problema que achamos que podia esperar

O beta provou que a nossa pesquisa estava certa antes do que esperávamos. O RH esquecia de incluir ou tirar funcionários, e o crédito ia para as pessoas erradas.

Os lembretes já existiam, e nunca iam ser suficientes: não tínhamos controle sobre quanta coisa cada pessoa de RH tinha nas mãos. Então a solução tinha que tornar os erros fáceis de desfazer. O RH podia estornar um crédito recente e adicionar crédito a funcionários específicos. Como isso já estava desenhado, conseguimos lançar rápido.

Um código que só o dono vê

Alguns meses depois, a Foodpass lançou os cartões físicos, e as regras de segurança do Stark Bank exigiam que cada cartão fosse ativado com um código que só o dono recebe.

Em 2025, a Foodpass me chamou de volta como freelancer, junto com a Paula, para desenhar essa experiência online e offline. A Paula desenhou o cartão em si, com as minhas revisões e feedbacks. O código de ativação vai na carta-berço, o papel que segura o cartão dentro do envelope. A carta responde cada pergunta na ordem: “Que cartão é esse? Qual app? Como eu entro?” Ela usa linguagem simples, passos visuais e um QR code que leva direto para o app.

Resultados

  • Lançamos rápido o bastante para pegar os primeiros clientes enquanto eles ainda procuravam um cartão. Conseguimos!
  • O cartão chegou a funcionários de várias empresas, como o segundo produto da Foodpass ao lado das cestas.
  • Abriu as vendas para empresas com mais de 500 funcionários.

Próximos passos

Para validar o cartão como segundo negócio, eu mediria:

  • O mix de clientes: a parcela de clientes que usa só cestas, só cartões ou os dois, e a receita que cada grupo traz.
  • O abandono durante o onboarding, do CPF ao código.
  • Os pedidos de suporte sobre os cartões.

Mas só números não bastariam. Pesquisas de intercepção, formulários e tickets de suporte não chegam de verdade a pessoas que não têm familiaridade com tecnologia. Então eu conversaria direto com os funcionários, para ter um retorno real, ao vivo.

E eu perguntaria ao RH. Quando os funcionários têm um problema, o RH é a primeira pessoa que eles procuram. Uma pesquisa com o pessoal de RH, ou uma pesquisa de intercepção no portal do RH, mostraria que reclamações eles recebem.

Agradecimentos

À Paula, e ao Eperson, ao Rafael e ao Henrique, do time de desenvolvimento, que construíram um novo negócio com a gente em dois meses ;)

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